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As telas estão reescrevendo a infância: um novo modelo sustenta que o cérebro em desenvolvimento integra a experiência até os vinte e cinco anos, com consequências profundas para a doença mental

Pesquisadores da Suíça e dos Estados Unidos apresentam o criticoma, o registro completo da experiência integrada durante os períodos críticos, e reformulam autismo, esquizofrenia, depressão e trauma como transtornos do desenvolvimento.

Peer-Reviewed Publication

Genomic Press

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Criticome: The Window of Becoming. Five categories of experiential information (sensory, motor, social, cultural, environmental) become integrated into developing neural architecture during critical periods of synaptic plasticity, spanning prenatal development through approximately age 25.

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Credit: Julio Licinio

LAUSANNE, Vaud, SUÍÇA, 2 de junho de 2026 — As crianças crescem dentro das telas. Uma nova revisão convidada e avaliada por pares, publicada na Brain Health dentro da série Thought Leaders, sustenta que à neurociência faltava a palavra para aquilo que essas telas tocam. A síntese, assinada por Michel Cuenod e Kim Q. Do, do Centro de Neurociência Psiquiátrica da Universidade de Lausanne, com Julio Licinio, da Upstate Medical University da State University of New York, lhe dá um nome: o criticoma. O registro completo da experiência sensorial, motora, social, cultural e ambiental que o cérebro integra durante os períodos críticos de plasticidade sináptica, de antes do nascimento até cerca dos vinte e cinco anos.

O que entra durante essas janelas torna-se estrutura de sustentação. O que não entra, ou entra torto, não se acrescenta depois com facilidade. Os autores não afirmam saber o que as infâncias saturadas de tela produzem. Oferecem algo de maior utilidade a um campo que vinha tateando a própria pergunta: um modelo preciso o bastante para estudá-la. Que criticoma se monta nessas condições, e por qual método seria possível medi-lo? A pergunta agora se impõe, não mais como alarme, e sim como problema.

Do disfuncionamento adulto ao transtorno do desenvolvimento

A síntese atinge seu maior alcance quando volta o modelo para a psiquiatria. Os transtornos do espectro autista, a esquizofrenia, o estresse pós-traumático, o transtorno depressivo maior e as síndromes ligadas à cultura passam a ser reformulados como quadros do desenvolvimento, e não como quadros puramente sinápticos. A pergunta clínica se desloca. Já não é apenas o que está quebrado no cérebro adulto. É o que não pôde ser integrado, ou foi integrado de modo equivocado, durante as janelas em que a integração era possível. A esquizofrenia, sob essa luz, prende-se à maturação perturbada dos interneurônios positivos para parvalbumina no córtex pré-frontal durante a janela da adolescência tardia. O autismo reflete um calendário alterado dos períodos críticos ao longo de múltiplos sistemas sensoriais e de associação. O trauma precoce altera a reatividade ao estresse pela vida inteira.

«Os dados nos dizem há anos que a esquizofrenia é um transtorno do desenvolvimento, não um transtorno da sinapse adulta», afirmou o doutor Michel Cuenod, coautor no Centro de Neurociência Psiquiátrica da Universidade de Lausanne. «A dificuldade sempre foi articular o que descarrilou, e quando. O criticoma nos dá uma moldura para essa pergunta.»

A depressão maior recebe o argumento mais cuidadosamente construído da revisão, apoiado em um notável experimento natural de Kenneth Kendler e Lindon Halberstadt. Os dois entrevistaram catorze pares de gêmeos monozigóticos criados juntos, porém rigorosamente discordantes para a depressão maior ao longo da vida. Com genótipo idêntico e a família de criação compartilhada, o gêmeo afetado quase sempre carregava o peso de uma ruptura nos vínculos, às vezes por acaso, às vezes empurrado para ela por um temperamento um pouco mais impulsivo que, ao longo de décadas, endureceu numa vida divergente. Kendler e Halberstadt chamaram essa lenta amplificação de continuidade cumulativa. A lente do criticoma recoloca o achado numa moldura mecanística: o andaime social integrado durante a longa janela pré-frontal da adolescência tardia é, ele próprio, estrutura de sustentação para a regulação do humor na vida adulta.

Seis mecanismos, uma só maquinaria

Seis mecanismos neurobiológicos ancoram o modelo: a regulação gabaérgica por meio dos interneurônios positivos para parvalbumina, as redes perineuronais que envolvem as células de disparo rápido, a mielinização progressiva dos circuitos corticais, a regulação epigenética dependente da experiência, a maturação neuromoduladora e a poda sináptica do desenvolvimento. Os autores tratam a poda como sexto pilar, e não como pensamento tardio. Até metade das sinapses corticais é eliminada ao longo da infância e da adolescência, cabendo à microglia e à marcação mediada pelo complemento boa parte do trabalho. O que se poda não se recupera. O que se preserva torna-se o substrato da cognição adulta.

Há um velho ditado brasileiro a que a sabedoria popular chegou muito antes dos biólogos moleculares. Papagaio velho não aprende a falar. Hubel e Wiesel demonstraram o mesmo no sistema visual do gato. A aquisição da linguagem, o canto dos pássaros, o apego, a geografia áspera do sentimento moral: a mesma lógica percorre todos eles. Uma janela se abre. Um código é absorvido. A janela se fecha. Depois disso, adquirir custa, e fica incompleto.

A mesma plasticidade, em duas direções

Os períodos críticos têm fio duplo. A mesma maquinaria que permitiu a Mozart emergir de uma infância encharcada de relação harmônica é a maquinaria que produziu os atrasos do desenvolvimento documentados nos orfanatos romenos. O percurso que vai dos primeiros passos de uma criança pequena até Roger Federer na quadra central repousa sobre a experiência motora integrada durante as janelas plásticas. O mesmo vale para a arquitetura contemplativa que se firmou quando Lhamo Dhondup foi reconhecido como Dalai Lama aos dois anos e mergulhado, desde a primeira infância, no treinamento meditativo. A revisão também nomeia os usos sombrios, sem pestanejar. As Juventudes Hitleristas nazistas exploraram a plasticidade dos períodos críticos de modo deliberado. Os conflitos atuais integram, em tempo real, a violência e o deslocamento nos criticomas de crianças, com consequências que sobreviverão às próprias causas.

A questão não resolvida das telas

A revisão trata a questão das telas como o problema aberto central de seu modelo. As crianças e os adolescentes de hoje absorvem experiência mediada por telas numa escala que nenhuma geração anterior conheceu, justamente nas janelas em que o criticoma é mais maleável. Os autores não afirmam saber que tipo de criticoma se monta sob tais condições. Sustentam, de forma persuasiva, que a pergunta agora é urgente e que o modelo oferece aos pesquisadores um meio de formulá-la como problema empírico verificável, e não como pânico moral. A tela altera o próprio calendário das janelas, ou apenas aquilo que se integra dentro delas? Ali se traça a linha de trabalho.

«Escrevemos isto para o clínico que faz as perguntas certas sem dispor inteiramente do vocabulário», afirmou o doutor Julio Licinio, coautor, SUNY Distinguished Professor na State University of New York, Upstate Medical University, e editor da Genomic Press. «É também para a educadora que se pergunta por que o ensino de uma segunda língua funciona tão melhor aos cinco anos do que aos quinze, e para o responsável por políticas públicas que tenta entender por que o investimento na primeira infância rende o que rende. São a mesma pergunta.»

Dois seres que descem ao fundo do mesmo rio

Uma das passagens mais evocativas da revisão é também uma das mais úteis na clínica. Os autores colocam uma frase de Finnegans Wake ao lado de uma frase das cartas de Lucia Joyce, filha de James Joyce, diagnosticada com esquizofrenia. Na superfície, as duas se leem do mesmo jeito: sintaxe rompida, palavras forjadas, associações que saltam dos trilhos da lógica ordinária. Uma das duas figura entre os romancistas mais celebrados do século vinte. A outra era paciente. Carl Jung, que tratou Lucia brevemente em 1934, deu a resposta mais aguda de que se tem registro. Pai e filha, disse ele, eram como dois seres que descem ao fundo de um rio, um caindo, a outra mergulhando. O criticoma oferece uma leitura neurobiológica dessa assimetria. Joyce compôs a partir de um criticoma integrado sob regulação intacta dos períodos críticos e escolheu depois, já adulto, navegar as próprias profundezas. A janela pré-frontal da adolescência tardia de Lucia fechou-se sobre uma integração perturbada, e as mesmas profundezas a arrastaram para baixo sem o consentimento dela.

O que o modelo não afirma

Os autores são explícitos quanto aos limites. O criticoma é um modelo conceitual, não um instrumento de medida. Não entrega um método para quantificar o conteúdo integrado num cérebro vivo. Os quadros que reformula são heterogêneos, e a lente do desenvolvimento é oferecida como fecunda, não como completa. Traduzir a síntese em intervenções verificáveis exigirá métodos de medida que ainda não existem, e os autores o dizem sem rodeios.

«Não estávamos atrás de um termo novo. Estávamos atrás de um modo de falar de algo que não conseguíamos nomear», afirmou a doutora Kim Q. Do, autora correspondente no Centro de Neurociência Psiquiátrica da Universidade de Lausanne. «Nossos estudantes perguntavam o que o cérebro de fato integra durante um período crítico, e nós recorríamos à memória, ou à aprendizagem cultural, ou à marcação epigenética, e nenhuma dessas palavras servia inteiramente. O criticoma é a nossa tentativa de servir.»

O modelo não resolverá toda disputa que toca. Não é essa a sua vocação. O que ele faz é converter uma literatura dispersa num vocabulário preciso o bastante para sustentar a próxima rodada de experimentos. Décadas de trabalho sobre os períodos críticos deram à neurociência as peças. O criticoma oferece um nome para o todo.

A revisão convidada e avaliada por pares na Brain Health, intitulada «The criticome as the window of becoming: Toward a novel and comprehensive framework for understanding the critical period of information integration in human development», está disponível gratuitamente em Open Access a partir de 2 de junho de 2026 na Brain Health, no seguinte link: https://doi.org/10.61373/bh026i.0021.

A referência completa para fins de citação é: Cuenod M, Licinio J, Do KQ. The criticome as the window of becoming: Toward a novel and comprehensive framework for understanding the critical period of information integration in human development. Brain Health 2026. DOI: https://doi.org/10.61373/bh026i.0021. Epub 2026 Jun 2.

Sobre a Brain Health

A Brain Health é uma revista de pesquisa médica avaliada por pares, publicada pela Genomic Press, Nova York. A revista publica pesquisa original, revisões e perspectivas em toda a amplitude da saúde cerebral e da longevidade, integrando a neurociência, a psiquiatria, a neurologia, a saúde pública e as ciências sociais e do comportamento. A Brain Health serve de fórum para trabalhos que examinam como o cérebro é moldado, sustentado, reparado e sobrecarregado ao longo da vida, dos mecanismos moleculares e celulares às dimensões clínicas, sociais e de política pública.

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