A pandemia de COVID-19 criou desafios sem precedentes para os profissionais de saúde em todo o mundo. Um novo estudo publicado na revista Nursing Inquiry descreve a violência sofrida por enfermeiros na América Latina — não apenas agressões físicas, mas também danos éticos e emocionais.
"Este estudo sobre a violência vivenciada por enfermeiros na América Latina durante a COVID-19 revela um padrão regional até então pouco reconhecido: violência e sofrimento moral resultantes de uma combinação de sobrecarga assistencial, estigma social e questões estruturais", afirmou a autora do estudo, Allison Squires, professora da NYU Rory Meyers College of Nursing e diretora do Global Consortium of Nursing & Midwifery Studies.
A pandemia de COVID-19 exerceu extrema pressão sobre os sistemas de saúde, aumentando a carga de trabalho e a exposição dos profissionais a riscos e danos. A violência contra profissionais de saúde — incluindo abusos, ameaças ou agressões que comprometem o bem-estar físico e psicológico — já era prevalente muito antes da COVID-19. No entanto, estudos mostram que a violência contra enfermeiros se intensificou durante a pandemia.
Alguns profissionais de saúde também vivenciam formas menos visíveis de dano, incluindo o sofrimento moral e a lesão moral. O sofrimento moral ocorre quando os profissionais sabem qual é a conduta adequada, mas não conseguem adotá-la devido a limitações do sistema e à escassez de recursos; já a lesão moral refere-se a danos mais duradouros decorrentes de situações como agir contra valores fundamentais, testemunhar repetidamente sofrimento desnecessário ou ser injustamente responsabilizado por falhas sistêmicas.
Ainda existem lacunas significativas na compreensão dessas experiências de violência e dano na América Latina — uma região marcada por sistemas de saúde frágeis e condições de trabalho historicamente precárias. Neste estudo, um dos maiores já realizados sobre a força de trabalho de enfermagem na região, uma equipe internacional de pesquisadores avaliou como profissionais de enfermagem vivenciaram e descreveram diferentes formas de violência durante a pandemia.
Os pesquisadores analisaram as respostas escritas de 3.860 enfermeiros e parteiras de 18 países da América Latina e do Caribe, que responderam a um questionário elaborado no âmbito do Global Consortium of Nursing & Midwifery Studies. Os dados foram coletados entre julho de 2022 e maio de 2025, abrangendo o período final da pandemia de COVID-19 e os dois anos subsequentes.
Os pesquisadores identificaram padrões recorrentes nas narrativas relacionadas à sobrecarga emocional, aos desafios profissionais e à exposição a múltiplas formas de violência. Três temas interconectados emergiram:
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Violência direta, como agressões verbais e físicas;
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Estigma, medo e rompimento dos laços de pertencimento social, como medo de contágio e isolamento;
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Sofrimento ético-político associado à responsabilização por questões estruturais, como a atribuição aos enfermeiros de responsabilidade por falhas que estavam fora de seu controle, incluindo a falta de leitos e medicamentos ou os longos tempos de espera.
Apesar das diferenças contextuais na região — por exemplo, em países com sistemas de saúde mais frágeis, a intensidade da responsabilização dos enfermeiros por problemas estruturais foi maior —, os temas revelam pontos em comum que marcaram as experiências de trabalho de enfermeiros latino-americanos durante a pandemia.
"Esse padrão regional sugere que a violência contra enfermeiros não é um fenômeno episódico, mas, sim, um fenômeno estrutural persistente, enraizado em desigualdades históricas na organização dos sistemas de saúde da América Latina e do Caribe, as quais se tornaram mais visíveis sob as condições da pandemia", escrevem os autores.
Os pesquisadores ressaltam que suas descobertas evidenciam a necessidade de políticas que fortaleçam a proteção da força de trabalho, a responsabilidade ética e o apoio institucional, tanto nos ambientes cotidianos de assistência à saúde quanto em futuras emergências de saúde pública.
Entre os demais autores do estudo estão Liana Amorim Corrêa Trotte, Marluci Andrade Conceição Stipp, Maria Gefé da Rosa Mesquita e Monaliza Gomes Pereira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Javier Isidro Rodríguez-López, Juana Jiménez-Sánchez, Sandra Milena Aponte-Franco e Paola Andrea Dixon, da Growing Up Foundation; María Guadalupe Casales-Hernández, da Universidad Autónoma Metropolitana, na Cidade do México; Gabriela Castillo-Veras, da Universidad Autónoma de Santo Domingo, na República Dominicana; Julio Alejandro García-Castillo, da Universidad de Carabobo, na Venezuela; e Marcella Gabrielle Betat e José Luís Guedes dos Santos, da Universidade Federal de Santa Catarina, no Brasil. Este estudo contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil (Processo nº 443719/2023).
Contato do autor: Liana Amorim Corrêa Trotte, Professor Adjunto da Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Email: lianatrotte@eean.ufrj.br WhatsApp: +5521981512741
Journal
Nursing Inquiry
Article Title
Violence, Stigma, and Moral Injury in Nursing During the COVID-19 Pandemic: A Qualitative Analysis From 18 Countries in Latin America and the Caribbean
Article Publication Date
2-Aug-2026