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A cientista que alertou: são os lucros, e não a ciência, que decidem quais medicamentos chegam aos pacientes

A Dra. Gabriella Gobbi, presidente eleita do CINP e neuropsicofarmacologista e psiquiatra da Universidade McGill, questiona a lógica da descoberta de fármacos.

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Genomic Press

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Gabriella Gobbi, MD, PhD, McGill University, Canada.

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Credit: Gabriella Gobbi, MD, PhD

MONTREAL, Quebec, CANADÁ, 17 de março de 2026 — A Dra. Gabriella Gobbi, Professora de Psiquiatria na Universidade McGill e presidente eleita do Collegium Internationale of Neuropsychopharmacology (CINP), compartilha em uma nova Entrevista Genomic Press publicada em Brain Medicine um alerta sem ambiguidades dirigido ao sistema global de desenvolvimento de medicamentos: os tratamentos promissores para doenças mentais não chegam aos pacientes porque a ciência falha, mas porque o capital de risco e o lucro governam quais compostos avançam nos ensaios clínicos.

"Meu maior temor diz respeito ao futuro da psicofarmacologia e da descoberta de fármacos", reflete a Dra. Gobbi na entrevista, "não porque a ciência esteja falhando, mas porque um sistema ganancioso supervisiona a inovação hoje." Ela descreve um panorama no qual o financiamento público pode sustentar a pesquisa acadêmica inicial, mas as etapas mais custosas, da toxicologia aos primeiros ensaios em humanos, dependem de investimentos privados orientados por expectativas de margem de lucro e não por necessidade médica. "Podemos perder bons tratamentos, não dispendiosos, porque um sistema ganancioso e capitalista controla qual fármaco chegará finalmente ao mercado."

Uma carreira construída à beira do leito

A Dra. Gobbi cresceu em uma casa repleta de livros no centro da Itália, neta de um homem que morreu sob os bombardeios aliados em março de 1945, depois de escrever de uma prisão alemã para insistir que seus filhos recebessem a educação que a ele havia sido negada. Essa herança, metade convicção moral e metade fome intelectual, percorre como um fio tudo o que ela fez desde então. Aos quatorze anos ela largou as histórias em quadrinhos e tomou Freud. No ensino médio leu sobre Rita Levi-Montalcini e a descoberta do fator de crescimento nervoso, e compreendeu que o cérebro não era fixo mas plástico, uma revelação que a orientou para a medicina. Aos vinte anos, durante sua formação em Roma, ela encontrou a pesquisa translacional, aquela prática de transitar continuamente entre o laboratório e a enfermaria, e percebeu que não conseguiria renunciar a nenhum dos dois mundos.

O caminho para a independência não foi nem suave nem linear. Na Itália dos anos noventa, os cargos acadêmicos eram controlados por professores seniores que atuavam como guardiões do sistema, e a Dra. Gobbi passou um período trabalhando em um hospital psiquiátrico privado em uma pequena cidade do centro da Itália, candidatando-se a programas de doutorado e genuinamente incerta sobre se algum dia obteria acesso à pesquisa. O ponto de inflexão chegou na noite de 29 de janeiro de 1996, na forma de um telefonema. Ela foi convidada a realizar o exame de ingresso ao doutorado em Cagliari, na Sardenha, na manhã seguinte. Embarcou em um avião às onze da noite. Às oito da manhã seguinte sentou-se na prova, e foi aprovada. Esse exame abriu a porta para o trabalho com o Professor Gianluigi Gessa, um neurocientista reconhecido por contribuições fundamentais à neurobiologia da dopamina e da dependência. Dois anos depois, em uma reunião de Psiquiatria Biológica em Nice, uma conversa fortuita com o Professor Pierre Blier resultou em um convite para integrar seu laboratório na McGill. Aquele único ano em Montreal tornou-se mais de duas décadas.

Do cannabis e da anedonia à melatonina e aos psicodélicos

A observação clínica que impulsiona sua linha de pesquisa mais conhecida é de uma simplicidade quase dolorosa. No início dos anos 2000, ela continuava vendo adolescentes e jovens adultos que fumavam cannabis e que, nos anos seguintes, desenvolviam uma depressão marcada por profunda anedonia. O padrão clínico tornou-se uma pergunta de laboratório. Em 2007, seu laboratório relatou um dos primeiros vínculos entre canabinoides, sistemas serotoninérgicos e fenótipos relacionados à depressão. Em 2010, estudos em modelos animais demonstraram que a exposição ao cannabis na adolescência poderia aumentar a vulnerabilidade a desfechos depressivos posteriores. Em 2019, evidências de suporte emergiram em coortes humanas. Esse conjunto de trabalhos acumula hoje mais de 1.700 citações e contribuiu diretamente para decisões de saúde pública no Quebec. A Dra. Gobbi também prestou depoimento como testemunha especialista perante o Senado canadense e os Ministérios da Saúde e da Justiça do Quebec em matéria de políticas sobre cannabis, contribuindo para a legislação que elevou a idade legal de acesso ao cannabis e para a regulamentação de sua publicidade.

Um segundo programa de pesquisa de grande relevância, conduzido em paralelo desde 2006, concentra-se no receptor de melatonina MT2, um alvo que era pouco compreendido quando seu grupo começou a investigá-lo. Seu laboratório contribuiu para definir a localização do receptor MT2 e para elucidar seu papel específico no sono NREM reparador e na dor neuropática. Um agonista parcial seletivo para o MT2, candidato de primeira classe em sua categoria, avança atualmente da descoberta inicial em direção ao desenvolvimento clínico. "Aprendi que na ciência, os projetos que levam mais tempo são muitas vezes aqueles que produzem os resultados mais significativos", observa ela na entrevista. Seu laboratório começou a investigar os psicodélicos em 2013, antes que a onda contemporânea de ensaios clínicos trouxesse o campo para o centro da atenção, caracterizando os efeitos ansiolíticos e prossociais do LSD em modelos pré-clínicos e identificando mecanismos moleculares subjacentes, entre eles a sinalização por mTORC1. Esse trabalho se estende agora à psilocibina, ao DMT e ao 5-MeO-DMT, enquanto novos estudos clínicos buscam identificar biomarcadores neurofisiológicos objetivos da ação psicodélica em humanos.

O imposto invisível que as mulheres pagam na ciência

A Dra. Gobbi não limita seu escrutínio à economia do desenvolvimento farmacêutico. Ela fala com notável franqueza sobre a desigualdade de gênero na ciência acadêmica, descrevendo tanto o assédio explícito quanto uma erosão estrutural mais silenciosa: acesso desigual a apoio administrativo, desvio para tarefas de baixa visibilidade e uma cultura de convites para conferências que prejudica as pesquisadoras que carregam responsabilidades de cuidado desproporcionais. "Esta é a causa que mais me inflama", afirma ela, "mudar a estrutura de nossa cultura científica para que a excelência seja reconhecida sem impor um imposto adicional, invisível, às mulheres." Em seu papel atual como presidente eleita do CINP, a organização cuja presidência ela exercerá como a primeira mulher em seus 70 anos de história, ela ouviu esses relatos repetidamente de mulheres talentosas que foram isoladas, avaliadas de forma inconsistente, ou simplesmente não convidadas à mesa.

A carta e o caiaque

Há uma carta da mãe da Dra. Gobbi, escrita antes de sua morte por glioblastoma em 2000, que ela nomeia como sua posse mais preciosa. É o tipo de detalhe que resiste a qualquer elaboração, e este relato deixará por isso mesmo. O que ela diz sobre a felicidade é talvez mais útil para o jornalismo científico: seus momentos mais felizes ocorreram naqueles instantes raros da pesquisa em que os dados de repente se alinham e algo obscuro se torna claro, "a sensação de que a natureza levantou brevemente um canto do véu, e de que um experimento não é mais apenas resultados em uma página, mas uma história que finalmente faz sentido." Quando se desconecta completamente, no verão, ela rema no Mar Adriático. No Quebec ela esquia na primavera, quando a luz se suaviza. Esquiar no inverno aqui, ela observa na entrevista, é simplesmente frio demais.

Quando perguntada o que mudaria em si mesma, a Dra. Gobbi não menciona nenhuma limitação científica. Ela gostaria de ter buscado mentoria e formação em liderança mais cedo. Começou sua carreira como professora assistente sem uma mentora e sem formação básica em gestão, redação de projetos ou resolução de conflitos. O arrependimento é característico dela: não é pessoal mas estrutural, um comentário sobre o que os sistemas acadêmicos deixam de oferecer e não sobre o que a ela pessoalmente falta. Sua filosofia de vida, oferecida ao final da entrevista, é sem adornos: "Faça o seu melhor, mantenha-se fiel ao que importa, e confie no que vem."

A Entrevista Genomic Press da Dra. Gabriella Gobbi faz parte de uma série mais ampla chamada Inovadores e Ideias que destaca as pessoas por trás dos avanços científicos mais influentes do nosso tempo. Cada entrevista da série oferece uma combinação de pesquisa de ponta e reflexões pessoais, proporcionando aos leitores uma visão abrangente dos cientistas que estão moldando o futuro. Ao combinar o foco nas realizações profissionais com perspectivas pessoais, esse estilo de entrevista convida a uma narrativa mais rica que ao mesmo tempo engaja e educa os leitores. Este formato oferece um ponto de partida ideal para perfis que exploram o impacto do cientista em sua área, abordando também temas humanos mais amplos. Mais informações sobre os líderes de pesquisa e as estrelas emergentes apresentados em nossa série Inovadores e Ideias — Entrevista Genomic Press podem ser encontradas em nosso site de entrevistas: https://interviews.genomicpress.com/.

A Entrevista Genomic Press publicada em Brain Medicine intitulada "Gabriella Gobbi: Embracing psychiatry from bench to bedside" está disponível gratuitamente em Acesso Aberto a partir de 17 de março de 2026 em Brain Medicine no seguinte link: https://doi.org/10.61373/bm026k.0015.

Sobre Brain Medicine: Brain Medicine (ISSN: 2997-2639, online e 2997-2647, impresso) é uma revista de pesquisa médica de alta qualidade publicada pela Genomic Press, Nova York. Brain Medicine é um novo espaço para o caminho interdisciplinar que vai da inovação em neurociência fundamental às iniciativas translacionais em medicina do cérebro. O escopo da revista abrange a ciência subjacente, as causas, os desfechos, os tratamentos e o impacto social dos transtornos cerebrais, em todas as disciplinas clínicas e suas interfaces.

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